Dezembro 16, 2009

Scout Niblett

P
sinónimo de irrecusável: Scout Nibblet, hoje, na ZDB - Zé dos Bois

Dezembro 14, 2009

#87

disse que seria preciso
de tão perto quanto possível
mostrar, silencioso

que a pele são puros pontos de
afinidade
exilada, nós
de mínimas lógicas contaminadas
no desejo das coisas que não tocávamos
acumuladas no repouso

do por-vir

as consequências desenhar-se-iam a partir
de sinais assim, restos
inter_______ditos
bordados malva
quase à distância

um ninho de bilhetes-postais

surgia sob a luz de um atalho
manuscrito, à soleira da casa
e nós sentados nas escadas do sótão
outra palavra do sublime
intransitivo
tu no meu colo, à medida
daquele
hábito
exacto

nessa tarde
pensámos, sem prudência

na desmesura
dos fractais

calendários virtuais
enquanto nos despíamos e

nas costuras dos nomes
dos livros que não líamos
mais, depois passei por água
a tua camisa branca
do avesso
apenas para voltar
a sujá-la com as mãos prenhes
de outras histórias imortais

muitas vezes sonhámos com um amor assim
tirado do nada

à flor da epiderme
de atributos e adjectivos tatuados
repousamos na rota sideral de um lance de escadas
____________ a nossa rampa de lançamento






Novembro 03, 2009

há cidades que nos galopam como palavras
vertigem voltagem veia

que nos distraem de citações
e a vida sem ecrã ali mesmo em torno de nós

a querer-se mais clara mais rara
num copo de café de cartão
pedido em repetição, sem pronúncia


há palavras nas horas tardias da memória
talvez como origem ou corpo indizível da cidade
como homens esculpidos
de fragmentos célebres
sem descanso, rua acima ruína abaixo
avanço, avanço
que falam dos grandes sismos rios artefactos
que fazem de recônditos buracos da glória

à espreita, céleres ciclos de ficção
à espera do espanto, à deriva
entre a Ku’damm e o Zoologischer Garten
todas as vias são virís emoções desenhadas a vento

suspeitas aberturas, cicatrizes virtuais de epidermes concretas
tocando levemente o entardecer sem abençoar quem passa

há cidades que passam as mãos nas palavras
talhadas noite adentro, imprevisíveis
músculos inchados, o termo exacto seria

num detalhe a abstração vital, o metro entre nós
eclipsando o livro
ameaçando não nos largar mais
por vezes delicados labirintos de sangue
outras, velozes decibéis de êxtase
aqui uma rua sem poeira
ali um suspiro de humanidade reunindo dos despejos
narrativas e garrafas com depósito

vi-me pensar tudo isto e as tílias
caíam lúcidas douradas algumas cobre
em Unter den Linden
não sei por isso se podemos dizer
Berlim de imediato pelo intervalo
do instante da história ou do instinto
se no eixo do desejo
um dia a noite continua a cair
no paradoxo da promessa

Outubro 27, 2009

...
FLYING TO BERLIN — WILL WRITE
LOVE YOU, STILL — HUGO

Outubro 22, 2009

elipse

há quem faça a mala a todo o instante
de fugida, à sua maneira enrodilhada
em cama fingida já feita
num oito, é a vida
em parte incerta, há quem
não faça ideia de como fazê-la
bem cedo pela manhã compacta
engasgado com itinerários
de braguilha
há a quem a vida corra e faça ainda assim
beicinho por ser tarde, mais um dia
e pelo fecho que não corre
por não caber, nem à força, mais um pouco
de corpo a corpo, à mão um excitante
para fazer da viagem tempestade
em copo de água vertida sobre
roupas e metáforas
e outras coisas que cheguem
previamente dobradas com cerimónia:
um poema suspenso, sem fazer sentido
entre a lucidez e o voo do fluído
que faz pontaria ao lado do passaporte
e das chicletes para descomprimir ouvidos

há, como eu, alguém vigilante
e viajante, que antes
do embarque fecha os olhos
fazendo da vida
um broche até ao fim
do mundo

e de resto, mesmo fazendo escala
em todos os suspiros
e mudando de cama com alguma frequência
não sei ao certo se faço pela vida
se pelo contrário a ele me faço
novamente
como quem faz de conta
que roda em deriva
carregado
satisfeito

Outubro 12, 2009

new fashioned wo-man


Do aforismo derridiano "j'écris d'une main de femme" a Femina, o mais recente álbum de The Legendary Tigerman, poder-se-ia tecer um rol imensurável de considerações, já para nada dizer das travessias e piscadelas de olho à história da música e à encenação de um por vir da imagem.
Não, The Legendary Tigerman não saiu do armário de um certo rock falocêntrico, mesmo dando agora uma outra voz às mulheres que sempre respiraram em registos e projectos seus anteriores.
Para além do género e da consideração, talvez baste por ora afirmar que estamos perante um dos trabalhos mais marcantes do panorama musical deste ano.

Setembro 29, 2009

mais de um – homem

Veneza 66 ditou que A Single Man de Tom Ford, mais do que peça efémera essencial ou fetiche de próxima estação, despontasse como exercício cinematográfico irrepreensível. Há mesmo quem diga que o Leão não andou longe de aclamar este homem e/ou esta obra singular que contra-assina na tela da intemporalidade a obra homónima de Christopher Isherwood.
Pode dizer-se muita coisa, é certo, para o bem e para o mal: para o bem, talvez ainda, que este homem único conta com o amparo de uma Julianne Moore e que, mais do que um Ang Lee ou um Wong Kar Wai antigos (sublinhe-se, "antigos"), parece ser "visually stunning" (perdoem-me a infelicidade da expressão anglófona, mas sou ainda mais alérgico ao sintagma "tem uma bela fotografia", tantas vezes proferido por quem nunca viu um filme a sério mas gosta de dar um ar de culto).
Eu que ainda não visionei a dita obra do dito homem único ou singular, vá-se lá saber (não, não vamos dizer aqui solteiro por um conjunto de outras questões que pouco importarão para a originalidade da obra na obra, o que perfaz, no mínimo, mais de um homem – haveria pois que ousar grafar o plural no próprio singular!), permito-me adiantar apenas isto, uma leve suspeição: Almodovar, para não nomear mais do que um, deve estar roídinho de inveja!

P

Setembro 20, 2009

metonímias

...
...

P
Massive Attack feat. Martina Topley-Bird, "Psyche". Splitting the Atom (EP), 2009
P
donde aqui o duplo sideral, a enxertia a tocar
o fundo que se retrai, que se ex-
cita, aí onde começa o fluxo certo da saliva,
a psyche de histórias e vagas à deriva,
essa erosão do reenvio
que nos confunde como o lapso (-- ) sim,
isto seria ainda a febre e o raio
num só nome,
morte fictícia de interditos paralelos
quando a boca tomba para a abertura
de onde não se sai só

porque está aberta

imaginem o ruído guardado do lado dos ossos
loucos de sombra
fracturada,
deslizando na direcção, na anatomia

da morte de circos imprevisíveis,
de quedas, plágios e enigmas avançando

lentamente por células adentro,
permeáveis, consumidas órbitas
de mãos dadas

Setembro 13, 2009

...
correu as cortinas para o lado do sol. não se sentia porém pronto para a lucidez do dia. tinha escrito a noite _________ toda. combatido corpo a copro com outros homens de veias inchadas. o esforço dos músculos. sabia que do outro lado a vida permaneceria uma moldura branca. permaneceu imóvel diante da janela que lhe iluminava os gestos. a mão seria agora lenta. tinha entrado e deslizava no tumulto daquele que em breve seria uma sombra. flash do indizível. aproximou a sede do espelho e viu a sua face suada de promessas na barba das horas. vestiu-se à pressa. a língua quase vigilante. lá fora, sem querer pensar nisso, era mais ou menos dia. espasmo sincopado. talvez por isso se tivesse esquecido das chaves ao sair de casa.
.

Julho 27, 2009

lost words (slow)

...
[um encontro de excepção, em explosão - Coimbra, Londres, as Américas reinventadas, a crueza das palavras incendiadas pela voz doce e lasciva de Tracy Vandal, a candura exótica de um raro e assombroso universo musical e as suas viciantes per-versões]
...
...


...........................Child of the Moon, 2009

Julho 25, 2009

...
tudo isto é simples
risonho auspício rosé

de boca em boca a fazer-se
noite húmida em Montréal
no interior dos músculos
cada um fita
paisagens para adultos à beira
rio ao longe
corpos de água doce mordem
outros gestos de climax e alteridade
transpiram palavras como
arquitectura e fluidez
quando se entra na ponta

da língua, bela cicatriz a decorar
ruínas em cena

no rasgo da graça
da matéria
anunciando what a smile

e porém alguém pensou nos ruídos dos incêndios
na eternidade de alguns adjectivos
sem as ontológicas questões, a arte
nos hospícios repletos
de bandos que riem tanto quanto suam
em noites de verão
e pronunciam
thanatos, porno blues, quartier latin
pela zona da cintura
em intenções de madrugada

rio
ao fundo
encena-se o adeus
sem ente
na língua dele
faz-se noite, é
bom suar

Julho 16, 2009

...
talvez um homem
talvez julho
de palavras raras
e um ardor de história
de ADN
posto a escorrer
em nota mínima de rodapé

talvez um pássaro
lento oceano de rútilos espelhos
talvez o excesso
de cor de
corais
no começo da frase
cedendo
à ponta dos dedos
acelerando membros
à velocidade da água
inundando retinas
e tantos outros embarcadiços artifícios

talvez sem fim
o fulgor de combates
de areia
a querer dizer-te cálido por dentro
por entre pálpebras siderais e esponjas de marés

talvez tentar por fim a vertigem
das folhagens sobre a nuca,
a febre de sal de sabor a sexo
e outros manuscritos,
a vibração dos insectos
contornando o silêncio
rematando o poema
ao longe
de corpo
tocado no olho
do desejo
talvez quase sem ferir

Julho 09, 2009

por vocação

...
olhou
roliça a mulher da fruta
a quem é costume

comprar promessas de pomar
e palavras maduras com caroço
nunca tal houvera

visto bater assim no ceguinho que
costuma vender num desvão

da rua direita na rua

bolas de naftalina e de berlim
sim coitado o sr. Adão
vejam lá enfim

por ter respondido torto
à dona da pastelaria “Cantinho do Céu”
essa víbora
que Deus nos livre

(Adão e Eva, uma maçã
os três com larvas lá dentro –
não vejo a importância de
trazer à história mais uma serpente

mais um diminutivo
quando sabe tão bem

morder
a língua
à primeira

tentação
à primeira
dentada)

Julho 06, 2009

luscious thoughts

P


P p
Good City for Dreamers (2009)

Junho 27, 2009

...
não era trolha nem poeta, mas
em alturas como esta
excitavam-no versos de andaime
caiados a branco

ó musa, dás-me tusa

ó doce, era onde fosse

Junho 22, 2009

L. A.

P
Laurie Anderson ou a quase transcendentalidade
P



[vídeo de Steven Lippman para o ábum Life on a String de Laurie Anderson (2001)]

Junho 21, 2009

...
a cada manhã
o corpo ímpar
pronuncia-se na sombra
ávido de sismos
quando a língua
esquece
a lucidez
aquece
palavras de febre
e civilização

a cada manhã
trabalhar um poema
excita-me
a nudez de ombro
literário

a cada manhã
interesso-me pela vida
dos grandes desvios
que me acenam
em itálico
tentações quotidianas

à noite sucumbo
ao retorno
das vértebras
em delírio

à noite
a língua
lembra-se de tudo
à distância

à noite
paga-se mais caro

Junho 18, 2009

sobressalto

...
por não saber senão
escrever torto
e gostar tanto de saltos
para a água
acordei algo molhado
e duro, de prever,
com um obsceno torcicolo

contuso dou contudo

um novo pulo até ao rio,
uns versos de Celan, em reverso,
fitando o Sena

e o risco, direitinho,
de saltar-lhe para o colo.

Junho 16, 2009

enca(n)deado

[P
[íntimo fim de tarde, em direcção ao sol nascente,
de retorno à dilecção de um lugar sem lugar,
de absoluta excepção]

I wish you were here



pppppppppppppTakeshi Kitano, Dolls (2002)

Junho 14, 2009

...
neste elíptico vaivém
vem em roda livre
falha lenta
quem quer que chegue
como quem vai,
para voltar, embora

(enquanto a vida devolve errónea
um verso que na gíria chega pronto a foder-me,
assim sem cerimónia)

se demoras venho-me não tarda
por dentro longamente
em jactos desmedidos de agora
adiados nos desvios
daquilo que afinal aflui e a-parece
só por fora
só por fora
...
deixa-me
deixa-me dizer-te que não
enquanto dormes
sim que é talvez chegada a vez
a fim de acelerarmos este passo

que não passo extenuado de sonâmbulo
que não foste nunca manhã alguma
nem tão-pouco um preâmbulo
à altura de embalar-me
na minha cama de quem passa
onde agora se fez véspera
e amanheci a descoberto
com capricho e pés de fora.

amanhã já tão tarde
de novo ou de engano
dir-me-ás que a luz te incendeia
sem conceder embalar restos
sem sequer arredar pé
descalçando o estorvo
e depois desta uma outra vez
que isto passa assim quase encoberto
a pretexto
que me és fiel por tudo
e quase nada

como se nada fosse,
que tenho pés bonitos, pois
que isto está cheio de tantos outros dias
repousando em desculpas bestiais
para andar

(na embalagem do elogio ou
no embalo do cansaço
não tive tempo de dizer-te
mesmo morando ao relento toda a noite, pouco importa
que afinal tu não me aqueces
nem tão-pouco arrefeces,
quase nada
assim tanto)

Junho 09, 2009

...
não gosto de escrever tanto
em cafés
ao invés de alguns putativos poetas
não consinto no fundo que possa
ser profícuo para o estro
que desejos pedidos e pedidos feitos

sejam por lá comummente
entregues de bandeja

gosto de escrever sobretudo
e é bem verdade
em salas de espera
de consultórios de dentista
cheira por lá perenemente ao prenúncio
de que se vai ficar por instantes
irremediavelmente assim
de boca aberta

(viver a vez sem carecer
de prótese de escrita seria pois
o único rogo digno de bandeja
ou então poemar por ano não mais
que duas vezes
como quem agenda destartarizar dentes
sensivelmente
de seis em seis meses)

Junho 07, 2009

recado

P
então dei-me conta, Bénédicte
palavra
sem pouco ou nada dar
nas vistas ou ao pé
como convém, a acrescentar
que eu mesmo me entreguei ao luxo
de dar à língua
uma e outra volta
e assim dar azo a mordê-la
por não saber de resto
por mais vazio que reste
contar de novo todo um recado
(que o café arrefece
que perdi por pouco
que estás enganada
que bem!)

agora é a minha vez de dizer
o poema todo desengonçado
sem o dar de volta
assim de novo
de mão beijada
com nó dado sem piedade, paciência, mas
duro em todo o rigor
mesmo que acabe por lembrar-me, até ver
que isto vai doer ou não
vai dar que falar, até tarde
que tudo isto não vai dar
afinal em quase nada

Junho 06, 2009

when I run in the dark

P

Junho 03, 2009

Picture theory II

P Bill Viola, The Veiling, 1995
P
P
Toda a imagem é um ecrã que vela uma outra. Efeito de real ou de viseira, ela é, na sua espectralidade, não apenas um reservatório de imagens à vela, não apenas uma abertura infinitamente finita, mas, de cada vez, um outro mundo, uma outra origem do mundo.

Picture theory I

P
Waldemar Kolbusz, Somersault 183 x 122 (óleo sobre linho)
P
P
A cor é, sem comparação, para além de toda e qualquer abstracção ou figuração, a celebração da imemorialidade de uma coreografia incomensurável de cores, jamais imaginável como tal.

Maio 31, 2009

uma coisa leva à outra

Pp
«Não limpes a lata de leite
condensado com o dedo,
mais vale lamber o resto
com a língua que te resta.
A língua quer-se bífida
e dedo cortado não é digno de aliança»,
disse Narciso a Eco à mesa da cozinha
fitando a toalha de plástico
de estampa mapa mundi.
«Agora deixaste cair
umas pingas sobre a América.
Não achas que já estragaste tudo?»,
e Eco respondeu, condensando:
«tudo».

É preciso ter lata,
gostar tanto assim de alguém
sem doce, corte ou anel
no embaraço.

Mas também houve um pai mundano
que amava o filho Jesus
e teve de ouvir todos os dias
à mesa
«sou filho de outro».

Maio 30, 2009

my own private

P
supus que River Phoenix me disse
veloz que eu era vadio
de viva voz que eu era bonito
a caminho de Idaho

mas ele morreu e tu continuas aqui.

Palpitação

P
For P.

contam mais de mil batidas
por instante
cada pack de corações
que comprei
no mercado negro matutino
de um remoto quarteirão
com séries de vermelhos rendidos
e artérias limpas
em irrecusável promoção
e que diligentemente arrumei
na primeira prateleira da despensa,
posta de reserva para suspiros,
pequenos dramas, filtros para o café,
coadores do dia-a-dia,
e outras alojadas per-
versões

no caso de quereres voltar
a arrumá-los a teu gosto
e se pelo sol e por acaso
estiveres prestes a romper
com ou sem sentido oco
num dizer de sopro húmido,
eu mesmo posso vir a tirá-los da estante
e a sofrê-los
prometendo à oferta de um novo contrabando
os meus corações de desconto e emitação

porque a cada latejo I swear this is true
que tu
que tu, tu deste hálito ao sangue
dentro de uma caixa numa estante
que corre só
so and swiftly through

Maio 25, 2009

porque o extraordinário acontece...

Maio 24, 2009

a.m.

P
comes palavras em jeito de break
fast de domingo suposto
de descanso e oração
num duo de doce no dedo
iogurtes light
batidos argumentos
e flakes para a digestão
com um rapaz loiro de condomínio fechado
de quem não sabes
a big deal

lembras-te de ter confessado
não gostar de blowjobs
sob o medo da subserviência
ou apenas no sobressalto de dizer
broche mesmo
sabendo que sabe bem
a poder mais do que a hóstia
de boca ávida posta na jóia

lembras-te de te dar
um outro gosto de língua,
de te trincar a orelha
a pedir «fuck me»
no gesto e à vez
se bem que estivesses já
a fazê-lo
no justo instante
em português

Maio 16, 2009

good stuff

Volvidos três anos sobre o memorável So this is Goodbye, o duo canadiano Junior Boys, a.k.a Jeremy Greenspan e Johnny Dark, está – aguardado evento – de volta aos discos, com o recentíssimo e fulgurante Begone Dull Care.
Faixas como "Work", "Hazel" e "Dull to Pause" constituem casos sérios de inexcedível qualidade criativa, com poucos pares no panorama musical contemporâneo. É caso para dizer que nunca o universo electrónico-indie-pop soou tão bem!


Junior Boys, Begone Dull Care (Domino, 2009)

(un)holy matrimony

P


Quando o artista plástico californiano Brett Westfall e a designer japonsesa Rei Kawakubo se juntam, «comme dans un rêve», sob a égide da Comme des Garçons ...

Maio 14, 2009

N'a Zona (de cá e de Cannes)


Cannes seria, por ora e por excelência, o destino irrecusável. Não faltam pois motivos de sobra que justifiquem a eleição: para além dos alegóricos e apelativos motivos do já conhecido postal, há sobretudo por lá, a partir de hoje, sob uma prometedora orquestração do veterano Gilles Jacob e sob o olhar de uma sempre geniosa Isabelle Huppert, um Michael Haneke com Das Weisse Band, um Pedro Almodóvar com Los Abrazos Rotos, um Lars von Trier com Antichrist, um Ken Loach com Looking for Eric, um Alain Resnais com Les herbes folles, um Quentin Tarantino com Inglorious Basterds, um Ang Lee com Taking Woodstock, ou ainda uma Jane Campion com Bright Star, um Gaspar Noé com Enter the Void e, entre outros, um Elia Suleiman com The Time that Remains. Como se não bastasse, sem mencionar os asiáticos que dão cartas de muitos trunfos nestas andanças (e sim, convém não esquecer que Campion é neozelandesa!), há ainda por lá alguns «nossos de cá», com um venturoso e excepcional João Pedro Rodrigues, já reincidente, cuja obra Morrer como Um Homem a elevadas expectativas procura fazer justiça.
Já por cá, e em boa hora, para aguçar o apetite fílmico ou para saciar um pouco da avidez que o menu de Cannes possa despertar, podemos contar com o que de melhor o cinema português conta nos últimos anos: A Zona, a primeira e irresolúvel longa-metragem de Sandro Aguilar, em estilo de uma certa herança lynchiana e em jeito de elogio de uma década de invenção cinematográfica, que é a de Sandro Aguilar, após marcante passagem por um IndieLisboa e um Festival de Locarno, está aí, vinda de lá, de um além-não-se-sabe-bem-onde, sinuosa e incontornável, como singular convite a uma viagem para além do limite, tal como o conhecemos e pensamos. Entre vida e morte, sonho e insónia, entre realidade e ficção, Sandro Aguilar consegue, como poucos, levar as câmaras até aos mais obscuros e profundos corredores do humano, povoado de espectros e de ecos, aí onde a trama se confunde com o trauma; aí onde uma narrativa torcida e tortuosa, de uma beleza ímpar, procura dizer do luto impossível a metáfora em absimo que dá pelo nome de cinema. «Tout le film est un spectacle et presente toujours le caractère un peu fantastique d’une réalité». Sandro Aguilar, tal como o disse Jacques Aumont, sabe-o melhor do que ninguém. Melhor: filma-o como ninguém. Há cinema em Sandro Aguilar, há cinema por cá, e este nunca tocou a arte de tão perto, algures, além. Um filme a não perder, para nele nos deixarmos perder.

Maio 13, 2009

Parémia

p
Em dia treze
da senhora
e dos prodígios,
certas putas
da noite
da minha terra
também fazem
milagres.

Noites de pecado
não são dias
sempre que
urros devassos
chegam aos céus.

Maio 12, 2009

Jessye Norman – retrato de uma esfinge

P
Ich leb' allein in meinem Himmel. In meinem Lieben, in meinem Lied!
... Schöner gibts nicht ...


Maio 11, 2009

Adília Lopes

ou a barroca pop


-------------------------------------------------------------------------Markus Färber

A vida é barroca
coisa entre moléculas
é claro que o cu
tem a ver com as cuecas
p
("Nota da Autora", O Regresso de Chamilly)
p
p
Poeta, cronista e tradutora portuguesa, nascida em Lisboa a 1960, Adília Lopes é o pseudónimo literário de Maria José Fidalgo de Oliveira – máscara da exiguidade do nome próprio e do comprometimento da autoridade, que, ao longo de mais de vinte anos de publicação, apostada sobretudo em reduzidas edições rapidamente esgotadas, tem vindo a abrir um espaço singularmente sedutor no campo da poesia portuguesa mais recente, portadora de inovação.
Apesar de ter abandonado, por conselho médico, o curso de Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o diagnóstico de uma psicose esquizo-afectiva – doença sobre a qual sempre falou abertamente quer na sua poesia, quer nas suas polémicas aparições mediáticas – não foi impeditivo de uma aposta na progressão da sua formação académica: em 1988 licencia-se em Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa (1983-1988) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e, após ter sido bolseira do Instituto Nacional de Investigação Científica (1989-1992), especializa-se em Ciências Documentais, pela mesma faculdade (1995).
Fazendo justiça a um transbordante tom humorístico e sarcástico, disfarçado de uma quase ingenuidade romântica, que tanto caracteriza o seu trabalho literário (malabarismo que chega não poucas vezes a roçar o grotesco, o corrosivo e o perverso), a especialista na arte de desconcertar, Adília Lopes, reclamou uma vez, a par dos cognomes “tímida desenrascada”, “cristã triste” e “freira poetisa barroca”, o estatuto de “poetisa pop”. Com efeito, os empréstimos ao ludismo e ao absurdo de uma poesia a que facilmente se tenderia a alcunhar de sádica e indigna, sobretudo pelo modo singular com que ironias radicais se projectam em processo autobiográfico (“Com os remédios/ engordo 30kg/ o carteiro pergunta-me/ para quando/ é o menino”, Sete rios entre campos, 1999), chegaram a acusar uma calorosa mas também trocista recepção, que, por momentos, alimentaram os epítetos. E se é verdade que a obra de Adília Lopes se situa na linha de risco de uma certa estética da banalidade – desafio confessado desde logo no título do seu primeiro livro, Um jogo bastante perigoso (1985) –, que assume a valorização do Kitsch e da iconoclastia enquanto efeito de suspensão do poético à beira do prosaico, do concreto singular, do episódico, do incompleto e do imperfeito, esta será certamente mais complexa do que alguma vez tais classificações poderão insinuar e permitir. Em Adília Lopes, a poesia parece expor-se a uma ambígua menoridade e à contaminação, aí onde o trabalho poético desmonta subversivamente no discurso o que é ou não é aceitável, desejável ou não desejável, resgatando para uma suposta singeleza e harmonia formal o pequeno, o frágil, o defeituoso e o sujo (“A limpeza/ pode ser/ pior/ que a porcaria/ A ordem/ pode ser/ a maior/ desordem”, César a César, 2003). Entre a bondade e a crueldade com que fios temáticos como o misticismo da domesticidade, a violência das relações quotidianas são abordados (e a confissão do sofrimento psíquico, social e sexual não deixa de reivindicar uma nova concepção de mundo, de amor e de corpo), sem esquecer uma heterodoxa aproximação ao cristianismo, sempre associado ao erotismo, respira-se afinal nesta poesia, através de um inescapável tom de melopeia popular, que faz uso do provérbio, do aforismo, da anedota ou até mesmo do slogan publicitário, em encontrões paródicos e paradoxais, o fôlego das citações da grande literatura. Trata-se pois de uma poesia inteligente e erudita, apenas aparentemente ingénua, rica em jogos hermenêuticos, inspirada pela tradição literária culta, de onde espreitam, a título de exemplo, Rimbaud ou Appolinaire, Sophia de Mello Breyner Andresen e Sylvia Plath, postos num sedutor diálogo polifónico.

Obra: Um jogo bastante perigoso, Lisboa, ed. de autor, 1985; A pão e água de colónia (seguido de uma autobiografia sumária), Lisboa, Frenesi, 1987; O Marquês de Chamilly –Kabale und Liebe, Lisboa, Hiena, 1987; O decote da Dama de Espadas, Lisboa, Gota de Água/ Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1988; Os 5 livros de versos salvaram o tio, Lisboa, ed. de autor, 1991; O peixe na água, Lisboa, & etc., 1993; A continuação do fim do mundo, Lisboa, & etc., 1995; A Bela Acordada, Lisboa, Ed. Mariposa Azul, 1997; Clube da poetisa morta, Lisboa, Black Sun Editores, 1997; O poeta de Pondichéry seguido de Maria Cristina Martins, Braga/Coimbra, Angelus Novus, 1998; Sete rios entre campos, Lisboa, & etc., 1999; Florbela Espanca espanca, Lisboa, Black Sun Editores, 1999; Irmã Barata, Irmã Batata, Braga/Coimbra, Angelus Novus, 2000; A obra, Lisboa, Ed. Mariposa Azul, 2000; A mulher-a-dias, Lisboa, & etc., 2002; César a César, Lisboa, & etc., 2003; Poemas novos, Lisboa, etc., 2004; Le Vitrail la Nuit/ A Árvore cortada, Lisboa, etc., 2006; Caderno, Lisboa, etc., 2007.

Maio 06, 2009

data

estL
Em contraciclo de data mínima
ampliada por dias rasos em cem laços de dormir
e tantas outras vezes antes de sonhar vir
a pôr em dia
corpos e créditos contraídos
de síntaxe e coisas de partir.

De perto resta ainda o intervalo
de um dia levado
na corrida de passos à deriva,
cerimonial em moldura branca ou sombra louca
inoportuna, posta
sem mais ais sobre
a cabeça chegada de fugida.

De resto, o tropo arredado chega-se à linha
de corpo ao alto vertido
em copo cheio,
secura de logro que se avizinha
no deslize e na suspeita
de dias como hoje à espreita.

Maio 02, 2009

[ this potential of feverish reverie in reactive abscence manoeuvring fair camouflage tissues inside ]


------------------------Hedi Slimane, Diaries (Tokyo, July 2008)

Clímax de ecrã. memória híbrida. e dentro e fora. e o sonho remoído enquanto a ruína se olha com a intensidade de quem reflecte segredos de colisão.

Maio 01, 2009

trick

-------------------------------------
1. Encircle with your thumb and forefingers. 1.1. Obsessive ambitions 2. Draw skywards and clasp tightly ----------------/ suave violência /
It's only a picture. the gaze show em requiem. 3. Escuta. in love with your brother. 3.1. He who lives by the (s)word. He. Here. Hear me. E
who will write the history of fears in high contrast
com galerias de contrastes medidas a olho incidente
estimulado cor e c t a m e n t e

NOTE obrigado por me ofereceres uma família. pena não poder enviar-te esta carta em forma de aforismo. moraremos revoltos num tempo furtivo between Heaven, Le Quartier Latin e o Milagre das Rosas.

Abril 28, 2009

vinco

Hoje deixaste o dia
dependurado no cabide.
Gostarias de envergar a vida
sem o desgaste das dobras.

Abril 27, 2009

ecos de vertigem

«If I had a voice I would sing», murmura-se em Fever Ray – universo apocalíptico de secretas criaturas que a polifonia espectral de Karin Dreijer Andersson coreografa, entre sombra e clarão, gelo e ardor. Se a vertigem tivesse voz, ressoaria assim...




Abril 24, 2009

D(e)ying wor(l)ds



Segmento de parede de El Anatsui (Bienal de Veneza, 2007)

before in-
version
or night insistent
blind light spliced between
vision then repeat through
tympanum preceding
................... jagged incantation
and it’s tricky now
to move from resting territories
to exact nothing
while texture
footnotes wide enough
so you can’t
collect lucid silvery bullets
descending
notes
diffracting
cells beginning
the sight of slight insides shifting
when arched dreams push
unravelled colours like so many
hands full of shoulders
and how many accidents since i
half-away profession
exit sign bent at each
dyeing imperative matter
only as withdrawn (___________) otherness beyond
thought
compact draft from failure toward gift
retreating
lavish veil tricks in the vein of reversed veins
& i wake digging in
cobalt vertigo

uncountable skins seducing outside
dreams double-
blind turns
for reason to hope
in our old dignity, dust
such to link
ink refusing wall
page presumed through tone

Ellipse capitalized
less than zero and
here it is .............. resting pun
golden profile distorted
defeated fable
as primary event
descending
a cornucopia of evasions
through nameless errors and
this is how
each world, split
in chance here
mere juxtaposition of borders
confounding trembling desire inside



Abril 22, 2009

Mr. Crawfish

«See I got him, see the size
Stripped and cleaned before your eyes...»

Não admira que Miuccia P. e Pilooski Edit tenham eleito este sound bite de King Creole (1958) mote de assombrosas tentações viscerais.




Abril 21, 2009

VB

Véronique Branquinho. Poderia tratar-se de apenas mais uma assinatura com o timbre da Flandres, não fosse ela uma criadora de absoluta excepção. Nada deve ao famoso colectivo «Seis de Antuérpia», que, abraçado por Martin Margiela, seduziu Londres. Mas não admira: são outras as suas paragens.
Dedicou-se às Línguas e Literaturas Modernas, bem como à Pintura. Talvez por isso seja hoje um caso raríssimo de quem faz poesia para vestir.


VÉRONIQUE BRANQUINHO
















Abril 19, 2009

Atravessar – Montréal


Montréal, a sua cicatriz bilingue entre o Este e o Oeste, impõe-se. Ecoa e vibra sempre que, em certos dias carregados, me imagino ou me sento num quarto de hotel, esquecendo alma e síntese, as pequenas fissuras e dobras da realidade, e anoto – o imperceptível, em viagem, entre excesso e insónia, algures entre o corpo e o delírio: «o meu desejo mais tenaz seria o de ser um urbano radical».

Abril 18, 2009

Schrift und Bild I

---León Ferrari. Planet. 1979. Stainless steel, 51" (129.5 cm) diam.



---Mira Schendel. Untitled from the series Graphic Objects. 1972


Enquanto o MoMA (Museum of Modern Art, NY) comemora em grande - e justamente, há que dizê-lo -, até ao próximo dia 15 de Junho, as criações de dois dos mais inventivos artistas sul-americanos, com a exposição Tangled Alphabets: León Ferrari and Mira Schendel, não resisti a partilhar aqui o rastro de um outro «grande», ainda que mais esquecido, e todavia um dos meus eleitos, dos entrecruzamentos da palavra e da imagem: Mel Bochner


-------------------------Mel Bochner. self-portrait. s.d.




Espasmo I

Porque, irrecusavelmente, todo e qualquer começo, a havê-lo, é já sempre uma ficção, um eco, uma resposta em atraso à incondicionalidade de um apelo, seria pois preciso, antes mesmo de começar, recomeçar, isto é, «começar» entre aspas e entre parêntesis, com 3 pontos de suspensão.




(...)excess tastes
-------------------suddenly
a break being
force-fed*




________________________

*N.T.: aí onde parece falhar o como
se
a perversão domestica o travessão___agora
mal textura invertida
sob a pele
de nós e-
feito de aspas em intervalo de dias
de hoje inadiável
a partir [de]__________________tudo concentrar
longe metonímia digna deste nome
vinda pequena morte vertical

(ritual: passar a branco I
run the risk
)
por todo o lado
onde
recomeçar---
** nothing is
inscribed,
__________let’s feed deviation